sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Um jeitinho novo de brincar

Nicolás tem uma boneca, chama-se Pásia. Dorme com ela e fala baixinho para não perturbar o seu sonho de pestanas mal penteadas.
Nicolás tem uma boneca e duas amigas. Candela às vezes vem por casa e fica com ele a passar a noite. Evelim achega-se quase todas as tardes, mas sempre vai embora antes de cear.
Candela e Nicolás brincam a serem os papás de Pásia.
A outra tarde Evelim pegou em Pásia, abraçou e falou com carinho a dizer que era ela a sua mamá. Eu procurava na cozinha uns gelados para a merenda. Então o Nicolás ficou zangado e levantou a voz como uma espada:
-Mas não! Tu não es a mamá de Pásia, a mamá é Candela!! Tu es a irmã de Pásia!
A menina ficou em silêncio. A pequena Evelim analisa os problemas e as ofensas com paciência antes de saber se é preciso responder, chorar ou procurar ajuda.
Senti lâstima e falei-lhes:
-Mas Nicolás, Candela não está, hoje pode ser a Evelim a sua mamá. Tu es o papá mesmo...
O Nicolás nao admitiu:
-Mas não mamai, a Candela é a mamá ainda que nao esteja cá. Sempre é a mamá. A Evelim é a irmá, ou a tia... mas não pode ser a mamá. Não há duas mamás!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Espiral


Miro el caracol, como una lengua encapsulada, comer los brotes tiernos y húmedos de la hierba. Se acaba la tarde y solo los pájaros rezan en las ramas. El caracol, con su espiral a cuestas, se afana en su alimento. Su espiral a cuestas. De pronto la pregunta: la forma en que resbalo, el laberinto en que me pierdo. Por qué es la misma forma? Por qué ha de ser igual el caracol y la redonda obstinación de las estrellas. El caracol, la huella digital de nuestros dedos, las estrellas, el agua enloquecida en el desagüe, la espiral de la duda. La pregunta.
El caracol, como una lengua encapsulada, calla. Los pájaros se duermen, conformes, en la desamparada calidez de sus plumas. Ya sé que no hay respuesta, pero existe la duda.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Aikido das palavras

Ainda em pijama, deitados na cama.
-Nico, hoje tem que sair-nos um dia bonito. Todo bem feito. Sem inocomodar e sem raiva.
-Vale, mamá.
-Mui bem, agora vas tirar o pijama e pôr a camiseta...
-Mamá...
-Quê?
-Necessito qualquer coisa para portar-me bem...

Então compreendo o seu propósito e com arte oriental aproveito a força da sua vontade para mudar o rumo:
-Queres dizer, algo mágico?

Fica um instante surpreendido e depois interessado
-Sim, qualquer coisa mágica.

Olho em redor: há uma lâmpada mágica como a de Aladino, demasiado simples. Há uma garrafinha de vidro veneziano, demasiado perigoso... Eis que atopo um moinho de café pequenino como um polegar. Um moinho de cerâmica, azul e branco, com pé de madeira, ruínas do que foi uma casa de bonecas.
-Olha! isto pode valer! sempre que sintas que va chegar a raiva, dá uma volta ao moinho. É da casa dos duendes mágicos. Já verás!
E fica feliz com o pequeno artefacto poderoso nas suas mãos.

Mas eu tenho um certo malestar por ter mudado o rumo do seu desejo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Presentimiento

Esta mañana ha llovido y el aire está fresco y un poco más azul. Acabo de recordar que ayer pisé una hoja seca solo para escucharla crujir. El otoño adelanta sus fanfarrias y el interior de las casas calienta las manos mientras los árboles se desnudan sin temblar.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Girasoles y destino

En marzo compramos las semillas. Nicolás las enterró suavemente en una maceta mediana con sus manos. Sus manos todavía tenían tres años. Después humedecimos la tierra y nos pusimos a esperar.
Aprender a esperar es complicado. Pero esperamos. Unos días llovió, otros hizo sol. Un día nos asomamos a la maceta y descubrimos que había unos diminutos brotes verdes.
-Los girasoles!! los girasoles! Los girasoles!
Continuamos esperando. Las manos de Nicolás cumplieron cuatro años. Los brotes se desperezaron y empezamos a planear su traslado. Un lugar donde el sol pudiese pilotarlos. Ahí.
-El domingo los trasplantaremos, qué te parece?
El domingo por la mañana nos agachamos delante de la maceta. Había muchas hierbas tiernas, brotes aplicados hacia el cielo. Fuimos escogiendo cuidadosamente los girasoles. Nos manchamos los dedos y tocamos las raíces. Apoyamos los frágiles tallos en unas varas y volvimos a esperar.
Era bueno esperar porque si un día llovía Nicolás se consolaba sabiendo que los girasoles estarían a gusto.
Un día de verano comenzaron a salir las flores. Salieron unas flores blancas de tallo acarocolado. Unas flores blancas.
Nos agachamos delante de ellas con los ojos arrugados y las cejas afiladas.
-Nicolás...
-Qué.
-Son blancas.
-....
-Nico.
-Qué.
-No son girasoles.
-No, mamá. Se equivocaron...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

De teclas, beijos e distâncias.

-...
-Olá?
-Olá mamá...
A voz devagar, com esse carinho com que pronunciam as crianças a língua recém estreada.
-Olá, Nico. Como é que falas tu pelo telefone?
-Sou mui listo, dei-lhe à tecla verde…
-Claro, qué listo!
-Mamá?
-Di-me
-Por quê me falas?
-Queria saber como estavas...
-Onde estás?
-Tou a trabalhar. Vou logo. E tu que estás a fazer?
-Eu estou a ver uma peli...
-Bem, eu vou logo para comer contigo e com Clara.
-Vale.
-Vale, um beijinho. Quero-te muito.
-Eu também, mamá.
Soa um beijinho que estoupa na minha orelha como uma bolha de sabão.
-...
-...
-Nicolás?
-Mamá?... mamá, onde lhe dou agora?
-À tecla vermelha.
Silêncio. Um silêncio pequeno como um quarto de estar no que adivinho a sua orelha ainda enconstada à minha e as suas mãos miúdas segurando a minha voz.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Nuestras Perseidas

Antes de que saliera la luna subimos a ver las Perseidas. El monte estaba todavía cálido, con sobras de sol sobre las piedras. El cielo húmedo de estrellas y nuestros ojos grandes y redondos, esperando como redes.
Nico quería aprender a no tener miedo. Se escuchaban los lobos en la oscuridad del bosque.
Clara, en su papel de adolescente cansada de la vida, despreció el brillo de la noche, el silencio, la calidez del aire, la sorpresa de su hermano. Permaneció de pie para no verse envuelta y cayó rendida de pronto ante la aparición enorme de una luna mal cortada pero dueña del cielo.
-La Luna!- gritó, traicionando su silencio premeditado.
Volvimos con cuatro estrellas fugaces y ese gustillo agrio que deja la volatilidad del boceto.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O poder da palavra

-Mamá, mamá... uma bolacha de chocolate, apenas umha, dá-me uma só, uma pequenina...
No lume ferve a pasta quase a ponto para o jantar. A molho de tomate e ourego perfuma a cozinha.
-Mas Nico, escuta, vamos comer agora. Tomas a bolacha depois.
-Nao! eu quero agora! uma pequenina, apenas uma!
-Nico, vamos comer agora...
Há uma brincadeira de olhares, uma guerra familiar e quotidiana que nunca tem vencedor definido e percorre o caminho perigoso do reto e o carinho.
-Olha, mamá... penso que te está a fazer falta uma palavra...
-O quê?
-Penso que te está a fazer falta uma palavra...
Espero torpemente na sorpresa admitindo a sua vantagem.
-Qué palavra, Nicolás?
E com a cabeça ladeada, abrindo já o paquete de bolachas e com um sorriso de estocada a fondo, sabendo-se vencedor:
-”Por favor”!... por favor, mamá, posso tomar uma bolacha de chocolate?