terça-feira, 31 de março de 2009

Malícia e conhecimento


Colhe o garfo na mão e enquanto procura umha batata frita, começa a falar. É a hora da ceia, onde vai desabar o dia.
-Júlia chamou-me tonto...
-Júlia? a tua amiga?
-Sim, Julia. E também cuspiu-me...
Agora meio choroso porque sabe da progressão do dano e da lástima que inspira, ambos proporcionais e concordantes.
-E nao lhe repreendeu a professora?
-Não.
-Mas então, como é que a Júlia fez uma coisa tão feia?
A mamá pode intuir pelos indícios, pelo seu olhar dentro do prato, pela mão que sustém a cabecinha tão afectada na mágoa...
Silêncio. O garfo remexe as batatas procurando palavras. Mais silêncio.
-E então?
E de pronto, como se a mão liberasse a língua, o garfo como uma espada, a boca aberta e os dous braços em alto:
-Pois então é que a Júlia não gosta de que lhe chame estúpida!! Mas ela é estúpida e não me faz caso... e...

E era essa culpazinha ali comichando... caladinha....

domingo, 29 de março de 2009

Entre el dragón y su furia


No dije nada que no quisiera decir porque sé que es frágil, pero aún así escuchó cosas que no hubiera querido escuchar. Se agazapó en la distancia de sus 87 años, se escondió en lo más oscuro de su propia mirada, debajo de sus cejas, y levantó la voz y la palma de las manos. Su voz también es frágil y sus brazos tiemblan como tiemblan las ramas centenarias bajo la ira del viento.
Es que a veces los años no nos hacen más justos.
Después pasó la noche. La mala noche.
Y hoy, sin palabras agrias, he sabido explicárselo y ha querido escucharme.
-Lo ha escrito todo Shakespeare, papá, recuerdas? Lo ha escrito todo acerca de nosotros.
Me acerqué a la librería, busqué la página, y recité en voz alta.
-Yo no soy el Rey Lear-, me dijo. -Las cosas no son así…
Pero sonreía. Había encontrado la manera de llegar hasta él. De pasar el umbral oscuro de sus ojos.
-Yo no soy el Rey Lear, hija.
-Eres más Lear y más Rey de lo que piensas. Y tu hijo es Cordelia… y yo no sé quien soy... debo ser Kent, el que se pone entre el dragón y su furia! (Reímos)
Todo sucede siempre en la cocina.
Después comimos y sucedieron más cosas. Más palabras. En paz.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Um ramalhete de flores


Se ela fosse um ave, seria das que arrastam estações. Chega e muda o mundo. Abre a porta e é quase como o vento, como a luz. Na cozinha faz magia e transforma as texturas e os sabores em delícia. Abre muito os olhos para contar as coisas e enreda os olhos de Nico com o seu coração.
Apanha três flores na porta da casa e pinta sobre a mesa da cozinha um equilíbrio breve, simples, que dá sentido às paredes. Um destelho no instante de voltar à casa.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Dessassossego


É uma angustiazinha, um dessassossego. Dessassossego: essa palavra que acontece entre esses tristes e reptantes. Dessassossego. Então é a vontade de chorar e ficar parada. Não mexer. Quase medo. Então não estou e estou por toda a parte. Vontade de fugir.
Somos química, penso. Alimenta-te bem. Faz desporto, come fruta. Mas a angustiazinha fica lá parada, como um bicho, como um insecto que sabes que va picar. E não há nada a fazer.
Agora mesmo. Agora. Esta vontade de estar apenas nas pontas dos pés para não sentir. Esperar.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Boa noite


Ás vezes tenho tanto sono ao chegar a noite que vou ás agachadas para a cama. Sem fazer barulho. Como levando no colo os meus sonhos para que não se rompam e não levantem a voz. Entro silenciosamente no meu quarto, deixo o meu corpo entre os lenços e adormeço sem mexer-me, na mesma posição em que me deito.
Mas eu não moro sozinha e ele espera as boas noites, um beijo, apenas essa raspa do dia para nós. Sei-no mas o meu sono é uma urgência. Então sou egoísta e mal-educada. Desapareço.
-Olha Nico, a ti mama dá-te as boas noites?
E Nico olha desconfiado, sabendo que as palavras são oblíquas.
-Sim.
-Pois a mim não.
E Nico olha para nós e responde muito sério:
-Porque tu dormes com ela.
E com essa verdade simples compassa os nossos tempos.

terça-feira, 24 de março de 2009

El olor de las prímulas


Ella les llamaba primaveras. Ahora sé que se llaman prímulas.
Son esas flores bajitas y dulcemente amarillas que aparecen con las primeras renuncias del invierno. Primaveras. Ella les llamaba primaveras y siempre les sonreía. Las veía junto a cualquier camino y se alegraba. Se alegraba porque susurraban días de sol. Entonces, y entonces es muy lejos, muy entonces, ella se agachaba y recogía alguna, aún sabiendo que sus pétalos tibios y casi transparentes se desharían en mis dedos torpes. Recogía alguna y me decía: Mira, primaveras, mira qué lindas son! Y yo las olía sujetando sus manos como si se fueran a escapar. El olor era dulce y pequeño como la noche y yo aguantaba la respiración cerrando los ojos para no perderlo.
Ella les llamaba primaveras. Ahora sé que se llaman prímulas. Siempre que las encuentro, los primeros días de marzo junto a cualquier camino, me agacho y las respiro, pero ahora ya sé que se llaman prímulas y que, además, no tienen olor.

Psd.: El nombre de las primaveras.

Pirata até no sonho


Mais uma vez deitados na escuridão do quarto. Debulhar o dia. Falar por falar. Somos animais: eu, a mama baleia. Ele, o bebê baleia.
-Agora sopra e acaricia-me como fazem as baleias.
-sshhh... – e também afago os seus cabelos e a sua carinha feita precisamente de ar.
- E, olha mamai, quando eras pequena, quem era teu irmão?
Eu bem sei, vontade de falar, que ele bem sabe:
-Meu irmão era o R. e a minha irmã a N.
- E a avó por quê é que ela morreu?
- Morreu porque era muito velhinha, e ainda porque estava um bocadinho doente e muito cansada... Mas olha Nico, vou terminar de arrumar a cozinha que já e tarde. Tens de dormir.
E então se move com jeito de lagartixa  e abraça-me com todo o corpo miudinho:
- Não, não! Ainda não, um bocadinho mais, só um bocadinho!
-Mas Nico, se eu ficar aqui não vas adormecer... tamos a falar, a falar e não dormes....
-Sim mamai!, eu adormeço,  olha para mim!
E fecha os olhos, fica calado. Mas de pronto um olhar que brilha, apenas o olhar dum olho, o outro fica preso pelo dedo que aperta e não deixa abrir. O olho grande e aberto, sozinho, está a rir:
-Olha mamai, vale com fechar um?